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20/08/2017

Desbravando Nós: Saudade


Em meio a tantos livros, abarrotada de anotações e trabalhos, hoje, escrevo a você. Olhando para uma estante cheinha de medos, sonhos, nostalgia e alegrias, hoje, eu escrevo. Escrevo lembrando de cada texto que aqui compartilhamos. De cada lágrima que derramei escrevendo. De cada palavra apagada e reescrita. Escrevo lembrando de cada devaneio, quando, tomada de esperança, acreditei que cada uma das linhas aqui escritas poderiam contribuir, minimamente, para transformar o mundo em um lugar outro. Em um lugar melhor.

13/08/2017

Desbravando Nós: Especial dia dos pais – entre a exaltação e a obrigação


Todo dia é dia dos pais: é um clichê no qual acredito. O meu pai é um típico amigão e palhaço, sempre tivemos uma relação maravilhosa, apesar de nossos inúmeros defeitos. Desde pequena, eu o vejo durante poucas horas do meu dia, mas isso nunca o impediu de estar presente em minha vida, mesmo quando chegou atrasado. O meu pai sempre esteve lá, porém, sinto muito em dizer que isso não o torna um herói. Isso não o torna uma pessoa excepcional.

16/07/2017

Desbravando Nós: Caro Lázaro


Caro Lázaro,

Você me convidou para uma viagem. Aceitei. No balanço do ônibus, algumas vezes interrompida por um ou outro “vai descer, motô”, fiz a maior parte do trajeto. Porém, muito mais longo e intenso que o trajeto de uma hora, que faço até a faculdade, foi o percurso da sua escrita. Por isso, inicio esta carta agradecendo: Obrigada.

Sabe, Lázaro, eu sou branca. Faz um tempo que tenho tentado fazer o que você propõe: olhar minha pele como um privilégio. A leitura do seu livro é parte desse meu caminho pessoal, e ao mesmo tempo coletivo. Eu aprendi, e me perceber como feminista foi essencial para isso, que não existe nada mais forte do que o lugar de fala de alguém. Ao invés de dizer o que os negros querem ou precisam, decidi fechar a boca: abrir olhos e ouvidos.

09/07/2017

Desbravando nós: Nos porões da loucura


Porão. Escuridão. Loucura. Você imagina o que é viver enclausurado? Preso? Amarrado? Defecando no chão? Sendo drogado sem nem ao menos ter ideia de qual droga te oferecem? Você imagina a cama fria? As grades nas janelas?

Você imagina o tamanho da violência?

Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez.

Esse foi o número de vezes que Helena Gayer esteve nos porões da loucura brasileira. Esse foi o número de vezes que ela esteve internada em clínicas psiquiátricas. Ou deveríamos dizer que delas foi prisioneira?

11/06/2017

Desbravando Nós: Manual da Faxineira e as mulheres que habitam em nós


No mundo há muitas mulheres. Embora tentem nos dizer que há um tipo de “mulher de verdade”, um modelo a ser seguido: somos muitas. Somos todas. E tudo, e todas, ao mesmo tempo.

28/05/2017

Desbravando Nós: A mania de explicar... A vida


Faz tempo que conheci uma menina. Uma menina com mania de filósofa. Uma menina com mania de passar os dias pensando pensamentos. Com mania de explicação. Era, finalmente, mais uma vez:

Ela gostava de inventar uma explicação para tudo que via. Para tudo que não via. Para tudo que os outros trilhavam um enorme caminho... até explicar. Mas o que é mesmo uma explicação? Ah, “é uma frase que se acha mais importante do que a palavra”.

30/04/2017

Desbravando Nós: Por entre as frestas da liberdade: eu, feminista


Hoje, depois de um dia agitado, de uma semana agitada, dentro de uma vida corrida, sentei-me e decidi que era hora de conversarmos. Então, convido você a sentar, ouvir, pensar. E, depois repensar, repensar e quem sabe, perceber, como eu, que existe algo a ser mudado. Que a hora é agora, que não há mais jeito de fingir que perdeu o bonde, que não é com você, que não é bem assim. Eu te convido a uma conversa simples e prática. Não começa comigo e nem termina comigo. É sobre todas nós. Hoje, a partir de tantas e tantas leituras, de livros e da vida, eu quero sentar, escrever... Eu quero falar sobre mim e sobre o feminismo.

09/04/2017

Desbravando Nós: Para educar crianças feministas – um manifesto


Sou Mariane.  Sou mulher, defensora dos direitos humanos, professora em formação: feminista.  Por todos esses motivos, e por muitos outros, comemorei quando, pela primeira vez, vi ser anunciado o livro Para Educar Crianças Feministas, de Chimamanda Ngozi Adiche, mulher, escritora nigeriana e autora de Sejamos Todos Feministas. Apesar dos pequenos desacordos, Chimamanda me faz lembrar da importância de sermos claras e simples, sem nunca deixarmos de ser fortes e firmes quando o feminismo está em discussão. Ela escreve um livro que é, muito além de um manifesto, uma carta endereçada a uma amiga. E, hoje, a amiga de Chimamanda sou eu. A amiga de Chimamanda é você. E, juntas, lembramos ao mundo da necessidade de educar crianças feministas.

02/04/2017

Desbravando Nós: Malala, a menina que queria ir para escola


Tenho andado cansada. Esse mundo, embriagado em preconceitos e constituído de opressões, por vezes, me cansa. Então, em um desses momentos em que as forças se perdem, o corpo não reage e não luta, Adriana Carranca me apresentou, de forma doce e forte, à Malala, a menina que queria ir para a escola. A menina que fez em mim renascer as lágrimas da esperança.

19/03/2017

Desbravando Nós: A cova e o holocausto


Lágrimas. Arrancá-las de nossos olhos é uma das façanhas mais intensas da literatura. Lágrimas, que muitas vezes não saem dos olhos, porém, inundam a alma, são a prova dos resquícios de humanidade em nós. Lágrimas e literatura: esperança e humanidade. Foram esses os sentimentos que transbordaram de meus olhos, do meu corpo, da minha alma, enquanto o balançar do ônibus seguia seu caminho. A humanidade incontrolável que saía dos olhos. A cova e o holocausto em mim.

12/03/2017

Desbravando Nós: Eu e a Pior Princesa do Mundo


Existem histórias que a gente conta. Existem histórias que contam a gente: nossos medos, sonhos. Nossa coragem e liberdade. Hoje, data tão próxima ao Dia Internacional da Mulher, escolho contar uma de minhas histórias favoritas. A história que, sempre que uma criança pede para que eu a conte, torna o meu dia mais leve. Torna a minha história mais resistente. Torna minha coragem mais persistente. Torna-me mais eu, na medida em que me torno um pouco mais dela: A Pior Princesa do Mundo.

26/02/2017

Desbravando Nós: Leminski e eu


Eu o paquerei por muito tempo. Entre tantos livros, seu laranja me chamava. Então, um dia, tivemos um encontro definitivo: a poesia de Leminski e eu. Como quem há muito aguardava o encontro: devorei-a. Não como quem devora e sacia-se; mas como quem devora, transborda e precisa dizer aos outros o motivo de seu transbordar...

12/02/2017

Desbravando Nós: Vasto Mundo


Se esse chão que pisas pudesse dizer-te... O que diria? Quais histórias contaria? Quantos assombros e receios a compartilhar? Lá em Farinhada, cidadezinha inventada, e tão real, de Maria Valéria, o chão conta causos. Mil proezas. Proezas de homens que morreram pela revolução. Mulheres que revolucionaram suas próprias vidas. Homens que eram suas próprias chagas e as chagas de outros. O chão esfarinhado do findo sertão, na Ditadura. O chão que conta as enrolações da existência.

05/02/2017

Desbravando Nós: Sejamos Todos Feministas


Era uma vez uma menina. Uma menina que nasceu com a alma florida, feita sonho. A menina sonhava em ser astronauta. Enquanto os adultos falavam sobre dificuldades e cifras, ela pensava nas estrelas. Como elas seriam de perto? Ela fechava os olhos e podia tocá-las. Era uma vez uma menina cheia de sonhos. Sonhos dela. Escritos e desenhados por si. E por sua alma feita confiança. E era apenas uma vez.

Era. Porque Sejamos Todas Feministas não é sobre a menina de alma florida. Sejamos Todas Feministas é sobre como uma sociedade machista arranca, pouco a pouco, as flores de uma infância feita primavera. Feita menina. É sobre como tudo vira rosa, sem opções. Sobre como tudo vira casa, cama, cozinha. Sobre como transformam meninas astronautas em mulheres submissas, impedidas de saírem do chão.

29/01/2017

Desbravando Nós: A mãe que chovia


Era uma vez. Uma vez, um menino. Uma vez, uma mãe. Ele, filho da chuva. Ela, a própria gota. Era uma vez todos o filhos de mães. E todas as mães. Mães que chovem. Mães que fazem chover.

“Desde sempre, todo mundo dizia que ele era filho da chuva” (p. 6). Porém, aquele “menino esperto, bem humorado e com idade de mais ou menos” (p. 8), sabia exatamente de quem era filho. E de quem vinham as gotas que lhe inundavam a alma de ternura.

22/01/2017

Desbravando Nós: Virgínia Woolf, a marca na parede e a imensidão


 “Agora é oficial”, li, outro dia, “somos todos feitos de poeira de estrela”. Ao que parece, os cientistas descobriram o que grandes escritoras, escritores, poetas e poetizas já haviam revelado: somos feitos de imensidão; mesmo pequenos e, por vezes indistinguíveis, como a marca na parede, de Woolf.

29/12/2016

Desbravando Nós: Perdidos em sombras


Estamos próximos de encerrar mais um ano. Contudo, quem é que encerra o tempo? 

Enquanto crianças, o tempo não faz total sentido para nós. Ontem, hoje e amanhã misturam-se, sobrepõem-se.  Dançam juntos como se fossem um. Os dias passam. E todos são dias de ser.  Até que nos ensinam a dividi-los e hierarquizá-los em dias úteis e inúteis, produtivos ou não. Até que nos mostram como é possível mergulhar em nossas próprias sombras, dividindo o indivisível. Vivendo de memórias rasgadas.

18/12/2016

Desbravando Nós: Os nada-a-ver


Era uma vez uma cidade, uma cidade em que todos eram singulares. Únicos. Preciosos. Totais nada-a-ver. Aliás, literalmente: Nada-a-ver-com-nada. Os nada-a-ver compartilhavam seu tempo e sua nada-a-verdice apenas com outros nada-a-ver que fossem menos nada-a-ver com ele. Confuso? Eu explico:

Na cidade dos nada-a-ver moravam pessoas de todos os tipos:

“O-que-sorri era parente próximo
D’O-que-assobia, que por sua vez
Era amigo D’O-que-quer-ficar-livre
E D’O-que-cata-borboletas”.

20/11/2016

Desbravando Nós: O Laço entre Nós


Elas poderiam ter saído de um livro: seus dramas, seus conflitos, seus medos; suas crenças, suas esperanças, seus amores. A coragem que as inunda e as fazem viver, entre maneiras e escolhas tão diversas, poderia ser ficção. Desconstroem-se e reconstroem-se, fazem de si matéria de estrela e suas almas transbordam espinhos, ma(i)s rosas. Elas, com suas contradições, desejos, anseios e força, poderiam ter saído de um livro. Contudo, elas saem de minha vida e entram, agora, nas suas, para lembrá-las de que o laço entre nós, mulheres, é a essência da nossa resistência e liberdade.  

Ela é vendaval constante e também colo que afaga. Ela joga aos lobos, mas protege e aninha. Ela doou seus sonhos a outros e, vez por outra, ainda gera flor. Reclama e faz canção, num mesmo ritmo, num compasso constante. Não há nada como ela. E com ela é tudo ou nada. Desejo dela o tudo e, ao mesmo tempo, nada quero. Quero ser eu mesma, mas sempre capaz de repousar na existência aflita, mas cuidadosa de seu coração.

16/10/2016

Desbravando Nós: Minha estante é cheia de crianças

Minha estante é cheia de crianças. Crianças que fui. Crianças que nunca tive a chance de ser. Mas, principalmente, crianças que eu desejo que existam: existam e resistam em suas próprias infâncias. A minha estante está cheia de crianças feitas sonhos; criança-flor, criança-poder, criança-magia, criança-aventura; criança-desejo, criança-coragem; criança-movimento. Minha estante está cheia de crianças, que muitas crianças não terão a chance de ser... E de quem é a culpa?
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